CRISE E IDEOLOGIA

Outubro 14, 2008
 

Armando Ribas
Escritor, Economista, Advogado, Professor de Filosofia Política, pertenceu ao staff do FMI, 1972-1976
Consultor do FDR

O mundo está assustado com a crise financeira dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, infelizmente, a esquerda está encantada pelo que parece ser o fim do capitalismo e, conseqüentemente, o advento do socialismo. Portanto, a crise promove temor e alegria neste mundo embriagado de anti-imperialismo cuja denominação atual é o antiamericanismo em função da hegemonia americana. Pretende-se, assim, ignorar que a crise européia é produto direto das próprias debilidades do Estado de Bem Estar Social (Welfare State).

Na ordem interna dos Estados Unidos a crise foi aproveitada pelo candidato democrata à Presidência, Sr. Obama, para culpar Bush e os republicanos pela crise. A partir desta conceituação em grande parte errada, propõe a luta de classes e uma maior intervenção do Estado no mercado. Nesta aparente solução reside o maior risco com que se enfrenta a economia americana e conseqüentemente o resto do mundo.

Outro New Deal significaria o fechamento da economia americana supostamente para salvar empregos – e já sabemos os resultados do protecionismo que deriva precisamente do sistema socialista.

No momento em que escrevo estas linhas, todas as bolsas do mundo despencaram verticalmente, supostamente seguindo a tendência de Wall Street, apesar da aprovação do resgate financeiro peça Câmara de Representantes dos Estados Unidos.

Este pacote de salvação foi politizado no primeiro momento, e muitos republicanos votou contra na primeira votação. A reação de Wall Street parece que fez a maioria retomar a razão e o pacote foi finalmente aprovado.

Mesmo que não seja possível discutir os alcances imediatos dos resultados do resgate, felizmente não se incorreu no erro de 1929. Naquele ano, tal como agora, como descreve Milton Friedman em seu livro ‘Free to Choose’ (Liberdade de Escolher, publicado no Brasil pela Editora Record, 1980) e FED de Washington se opôs à proposta do FED de Nova York de atuar como prestamista de última instância. A conseqüência foi o fechamento de mais de 10.000 bancos e a derrocada de 50% da economia.

Não há dúvidas de que a crise financeira dos Estados Unidos teve sua origem na especulação excessiva com os créditos hipotecários, junto com a baixa taxa de juros que produziram a supervalorização dos bens de raiz. Ou seja, a denominada ‘bolha’ cuja explosão se debita a causa imediata do que se considera uma perda imensa de riquezas. Em minha opinião, quando o preço de um bem está reconhecidamente supervalorizado, sua queda não significa uma perda de riqueza para a sociedade – por mais que assim se sinta o proprietário do bem – porque o bem não desaparece.

Particularmente, no caso dos bens de raiz é um caso diferente do preço das ações. Por isto penso que o efeito mais perigoso da crise atual pode ser, e parece estar sendo, ideológico.

É provável que o impacto da crise financeira determine uma recessão nos Estados Unidos e nos demais países. Mas isto não se deve à queda das bolsas. Historicamente os preções das ações não refletem a evolução da economia real, mas sim a percepção especulativa do público a respeito delas. Em muitos casos nos esquecemos e não levamos em conta a expectativa de possíveis ganhos das empresas que não caem abruptamente em conseqüência da queda dos preços das ações, pois ela pode significar um incremento da rentabilidade por maiores que sejam as perdas dos proprietários originais.

Devemos recordar que entre 2000 e 2002 a Bolsa de NY caiu 35% e a NASDAC quase 60%. O preço das ações naquele período, segundo informações do FMI, caiu em torno de 15%. Apesar dos azares da Bolsa nesses dois anos o PIB americano cresceu 2.4%. Portanto, ainda no caso que se produzisse uma recessão apesar do pacote, ela não significaria um processo similar ao ocorrido durante as crises da década de 30, incluindo o New Deal.

Frente ao tsunami financeiro a esquerda comemora. Supõe que o capitalismo morreu e o pacote é percebido como o triunfo definitivo do socialismo, do Estado sobre o mercado – da generosidade frente ao interesse e o egoísmo. A meu ver, a realidade é bem outra. Seria o triunfo do poder sobre o direito, da opressão contra a liberdade. Esquece-se facilmente que nos países mais importantes da União Européia, como a França e a Alemanha, a deterioração econômica e os problemas bancários foram produzidos pelo próprio sistema que se propõe como solução que tem produzido um gasto público a superar os 50% do PIB.

No caso da América Latina dificilmente se pode pensar que está regida pelo sistema capitalista. Não existem limites ao poder nem respeito aos direitos individuais à vida, à liberdade e à propriedade, por mais que existam sistemas aparentemente democráticos. Deixemos de lado o caso de Cuba, cuja economia foi destroçada por Fidel Castro durante cinqüenta anos – por mais que a cegueira e a hipocrisia universais pretendam culpar o erroneamente chamado ‘bloqueio americana’ pela fome e a pobreza que afligem os cubanos.

Na Venezuela impera o denominado ‘Socialismo do Século XXI’, imposto pelo Sr. Hugo Chávez, admirador de Castro e impelido pelo preço inusitado do petróleo – o qual, diga-se de passagem, é outra das causas esquecidas dos problemas econômicos mundiais. Lá não se respeita a propriedade privada e os partidários do regime invadem terras e edifícios com a anuência e o apoio dos funcionários do governo. Segundo informação do CEDICE desde 2002 a produção de alimentos viu-se reduzida em 60%, o rebanho foi reduzido em 20% e a importação de carne aumentou 60% e a produção de açúcar diminuiu na mesma proporção.

O Sr. Chávez usa os ganhos do petróleo para expandir seu modelo por todo o continente, como na Bolívia de Morales e o Equador de Correa. Ambos pretendem ampliar seus direitos constitucionais (Correa já conseguiu), supostamente em nome do direito do povo, que é a desculpa para violar os direitos individuais. No caso da Bolívia, Morales encontrou uma oposição suficientemente forte, política e economicamente, o que não ocorre no Equador.

Ao mesmo tempo fica cada vez mais evidente o apoio de Chávez às FARC e o resto da América Latina se nega a reconhecer o caráter terrorista deste movimento. Numa reunião recente as pretensões de Morales receberam o apoio até mesmo de países supostamente democráticos, como o Chile. Sem dúvida, na Argentina o desconhecimento dos direitos individuais através de normas que violam a Constituição é também um fato evidente e esta foi a fonte do enfrentamento com os representantes dos produtores agrícolas.

A crise financeira transcende a economia e afeta diretamente a ideologia, e este é o maior perigo que a humanidade enfrenta hoje.

Tradução: Heitor De Paola

FONTE: Farol da Democracia Representatica

Divulgação: Carlos Latorre


Mais Olavo de Carvalho

Outubro 13, 2008
“Os” intelectuais e seu modelo


 

O filósofo francês Jean-Yves Béziau dizia que o pensamento universitário no Brasil é a imitação subdesenvolvida de um modelo degenerado. Recentemente, o modelo e sua imitação voltaram a exibir-se nas páginas do noticiário, o único lugar onde podem experimentar, por momentos, uma deliciosa sensação de existência. Em Paris, informa-nos a Folha, “o encontro dos filósofos Alain Badiou e Slavoj Zizek, em 16 de maio passado, foi um show de inteligência e bom humor”. É um equívoco. Dois ídolos da esquerda que se reúnem para afirmar que “o fracasso do socialismo real não invalida o comunismo” constituem, mais propriamente, um espetáculo de mendacidade e humor negro.
Desde logo, a escolha das palavras é um eufemismo cínico. Fracasso é brochar na noite de núpcias. Matar cem milhões de civis é uma exibição de força e de capacidade organizativa como jamais se viu no mundo. O comunismo não fracassou: apenas mostrou a que veio. Marx, Engels e Lênin sempre afirmaram que o regime comunista se imporia pelo genocídio. Ninguém pode acusá-lo de ter falhado nisso.
Não satisfeitos com o truque idiota, Badiou e Zizek, ao proclamar que “é preciso reabilitar o comunismo”, deixaram claro, para alívio geral, que não se referiam àquela coisa medonha que foi o estalinismo. Mas, esperem aí, quem matou cem milhões não foi o estalinismo, a variante russa do comunismo. O estalinismo matou vinte milhões. Os outros oitenta foram assassinados pelo comunismo em geral, principalmente na sua versão maoísta, à qual o próprio Badiou ainda exibe alguma fidelidade residual. Clamar contra “o estalinismo” é a fraude metonímica com que os saudosistas do maoísmo tentam se limpar da cumplicidade com horrores que ultrapassaram a imaginação do próprio Stalin.
Zizek, por seu lado, repele o nivelamento moral de nazismo e comunismo, afirmando que o primeiro matava coletivamente, ao passo que o segundo tentava ao menos formalizar alguma acusação, como nos famosos Processos de Moscou. A comparação revela aquela mistura de ignorância e má-fé sem a qual ninguém pode se tornar um respeitado intelectual de esquerda. Os acusados dos Processos de Moscou eram líderes eminentes do Partido, julgados por traição. Altos funcionários do governo alemão sob acusação similar eram também julgados por tribunais militares ou civis. A massa dos assassinados pelo comunismo não teve o privilégio de nenhum processo judicial. Foram condenados em bloco, por pertencer a grupos sociais indesejáveis, exatamente como os judeus na Alemanha. Nos dois casos, o processo individualizado, que nas democracias é o mais elementar dos direitos humanos, torna-se uma prerrogativa da nomenklatura, enquanto o zé-povinho vai para o matadouro em filas anônimas, sem saber de que é acusado. A simetria é perfeita, mas, para Zizek, invisível.
Na mesma semana em que a Folha se deleita ante essas exibições de deformidade mental, um grupo de quarenta intelectuais esquerdistas, os mesmos de sempre – autodenominados “os” intelectuais, para dar a entender que fora do seu círculo não há vida inteligente (como se lá dentro houvesse alguma) –, reuniu-se com o presidente da República e, extasiado, recebeu dele duas garantias reconfortantes:
1º. Contrariando o que dissera à agência Reuters (“nunca fui esquerdista”), Lula afirmou que sempre foi de esquerda e é ainda.
2º. Desmentindo a fantasia bushista de um Lula pró-americano, o nosso presidente está cada vez mais afinado e convergente com Hugo Chávez.
Os senhores podem imaginar a satisfação quase erótica com que essas informações foram recebidas por “os intelectuais”. Pena que Zizek e Badiou não estivessem lá.
De passagem, observo: O que caracteriza o sr. Lula não é que ele tenha duas caras — é que elas permaneçam sempre higienicamente separadas, sem que ninguém, exceto eu, busque decifrar a unidade secreta por trás de um personagem que é homenageado simultaneamente em Davos pela sua conversão ao capitalismo e no Foro de São Paulo por sua fidelidade ao comunismo.

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 26 de junho de 2008

Fonte: Farol da Democracia Representativa.

Divulgação: Carlos Latorre.


Atigo – Olavo de Carvalho

Outubro 12, 2008

Silêncio e mistério

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 9 de outubro de 2008

 

Depois do pedido de dispensa com que se esquivaram de entregar à côrte a certidão de nascimento de Barack Obama (v. meu artigo anterior em www.olavodecarvalho.org/semana/081002jb.html), os advogados do candidato democrata armaram esta semana uma segunda manobra protelatória, solicitando que qualquer nova ordem judicial para a exibição do documento seja sustada até a decisão do juiz quanto àquele pedido.

O processo foi aberto em 15 de setembro pelo advogado democrata Philip Berg porque a direção nacional do seu partido, desobedecendo o Freedom of Information Act (Lei de Liberdade de Informação, que assegura aos cidadãos o acesso a documentos publicamente relevantes), recusou mostrar-lhe um original impresso, que Berg exigia por suspeitar que a versão eletrônica publicada pela campanha de Obama era forjada, como o asseguravam peritos judiciais consultados. Mais estranhamente ainda, o Departamento de Estado e a administração do Senado Federal, alertados quanto à possível falsidade da certidão eletrônica, não quiseram investigar o assunto. Berg ficou ainda mais desconfiado quando, comparando as declarações de adeptos e familiares de Obama, notou que o Messias democrata parecia ter realizado o milagre de nascer simultaneamente em dois hospitais (v. http://obamacrimes.com/index.php/component/content/article/1-main/28-phil-j-berg-files-amended-complaint-in-berg-v-obama).

Tantos esforços para fugir à exibição de um documento banal sugerem que realmente ele não existe, que Obama nunca foi cidadão americano e que sua possível eleição à presidência será seguida de uma crise política horrososa, com metade do país pedindo a cabeça do mandatário ilegítimo, a outra metade clamando histericamente contra o “golpe” e exigindo que a constituição seja sacrificada no altar da fé obâmica – um resultado até mais delicioso, para os inimigos dos EUA, do que a simples eleição do presidente americano mais esquerdista de todos os tempos.

Mais esquerdista e mais misterioso. Além de sua nacionalidade duvidosa e de inúmeros episódios comprometedores da sua biografia, sonegados à população pela grande mídia (ajuda recebida de terroristas, troca de favores com o estelionatário Tony Resko, intervenções diretas na política do Quênia em favor do genocida e agitador anti-americano Raila Odinga), resta o fato de que Barack Hussein Obama, por motivos incertos e não sabidos, usa também os nomes de Barry Obama, Barry Sotero, Barrack Dunham e Barry Dunham. Para complicar, Jerome Corsi, o repórter do WorldNetDaily enviado ao Quênia para esclarecer as passagens nebulosas de Obama pelo país, foi preso pela polícia local e enviado de volta aos EUA. Se o muro de silêncio erguido no Brasil em torno do Foro de São Paulo foi várias vezes furado pelos jornais de outras nações latino-americanas, o círculo mágico de proteção em torno da identidade de Barack Obama parece ser tão global quanto o imposto que ele quer fazer a humanidade pagar à ONU. Mesmo os candidatos republicanos, com evidente prejuízo eleitoral próprio, guardam respeitoso silêncio quanto ao processo que corre contra seu adversário na Pensilvânia, e, quando mencionam outros fatos indecorosos da sua carreira, como o fez Sarah Palin dias atrás, amortecem a denúncia com termos vagos e genéricos, que antes servem para irritar o eleitorado obamista do que para fazê-lo enxergar o tamanho da encrenca em que, segundo tudo indica, está se metendo ao confiar num desconhecido que se esmera em encobrir seu passado. Até o próprio WorldNetDaily, o mais intransigentemente conservador entre os grandes sites de jornalismo, só noticiou o processo no último dia 6, com atraso formidável. Por esses detalhes vocês vêem o quanto é falsa a noção, diariamente reiterada pela mídia nacional, de que a reputação do ilibado Obama está sob cerrado bombardeio da campanha McCain. O arquiprotegido Obama passa bem, obrigado. Sarah Palin é que já virou até personagem de filme pornô.


Artigo – Olavo de Carvalho

Outubro 12, 2008

Um blefe descomunal

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 9 de outubro de 2008

 

Entrevistado sobre a ligação entre Barack Hussein Obama e o terrorista William Ayers, o advogado e cientista político Steve Diamond entregou ao New York Times as provas documentais de que Ayers havia fundado a ONG Chicago Annenberg Challenge (CAC) e nomeado Obama diretor da entidade. O jornal preferiu esconder as provas e proclamar que “segundo várias pessoas envolvidas no caso, Ayers não influenciou em nada a nomeação de Obama.”

Os documentos falam por si. São cartas entre Ayers e a Brown University, patrocinadora da CAC, mostrando que a autoridade de compor a diretoria dessa ONG incumbia inteiramente ao próprio Ayers. Mais que “influenciar a nomeação” de Obama, ele o nomeou pessoalmente.

Veja os papéis no site de Diamond, http://globallabor.blogspot.com/2008/09/obamaayers-update-letters-show-bill.html e explicações suplementares do repórter Aaron Klein em http://www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=77075.

Às provas, o New York Times preferiu as meras opiniões de terceiros, porque estas negavam a dívida de Obama para com Ayers. A mídia esquerdista chique, insisto, é puro crime organizado. Organizadíssimo. A matéria do NYT saiu ao mesmo tempo que os anúncios da campanha de Obama que qualificavam de “insulto” a afirmação de Sarah Palin de que Obama tem ligações estreitas com terroristas, acusação aliás já feita pela própria Hillary Clinton em abril (v. http://www.politifact.com/truth-o-meter/statements/440). E mal o NYT havia acabado de abafar a denúncia de Steve Diamond, quando a Universidade de Illinois veio confirmá-la integralmente, divulgando cento e quarenta caixas de documentos – não cento e quarenta documentos, mas cento e quarenta caixas – que reconstituem com detalhes todo o trabalho conjunto desempenhado na CAC pela dupla Obama-Ayers (v. http://elections.foxnews.com/2008/08/26/newly-released-documents-highlight-obamas-relationship-with-ayers).

Outra denúncia que, com a ajuda da grande mídia, a tropa-de-choque obamista tem desmentido naquele tom de dignidade ofendida tão típico da eloqüência esquerdista é a da troca de favores entre o candidato e o vigarista sírio Tony Resko, já condenado por dezesseis crimes. Resko foi um dos principais financiadores da campanha de Obama ao Senado. Obama jura: “Nada fiz em favor dele.” Em resposta, o Sun Times publicou as cartas que o senador então recém-eleito escreveu a várias prefeituras recomendando que investissem num projeto imobiliário do malandro (v. http://www.suntimes.com/news/politics/425305,CST-NWS-obama13.article).

Tal como aconteceu com a ocultação do Foro de São Paulo pela totalidade da classe jornalística brasileira, o manto de proteção estendido em torno de Obama não pode ser explicado como efeito casual da mera incompetência. Desde que o momento em que apostou tudo em Obama, a grande mídia dos EUA abandonou os últimos escrúpulos de idoneidade, perdeu todo o respeito pelos direitos do público e partiu para a manipulação cínica do eleitorado, sem a qual um candidato tão obviamente desprovido de credibilidade não teria jamais a menor chance, como Lula não teria tido no Brasil se o povo soubesse de sua parceria com as Farc, o Mir chileno e organizações congêneres.

Caprichando na falsificação, a Associated Press disse que a denúncia das ligações perigosas de Obama tinha “subtons racistas” (http://www.breitbart.com/article.php?id=D93KD6Q00&show_article=1). A alegação é manifestamente absurda, mas, na esquerda, quem liga para isso? Desde o início, a propaganda obamista tratou de inibir os críticos por meio da chantagem racial. A AP, que só nominalmente não é órgão da campanha obamista, leva a trapaça às últimas conseqüências ao chamar de “racismo” qualquer insinuação de que a folha corrida de Obama é enegrecida não pela cor da sua pele, mas pela cumplicidade com Ayers – um branco. Já expliquei aqui (http://www.olavodecarvalho.org/semana/080721dc.html) que a inversão revolucionária de sujeito e objeto pode ser observada não só nas grandes linhas do discurso ideológico de esquerda, mas até nos detalhes mais mínimos da sua tática verbal. Quod erat demonstrandum, pela enésima vez.

O símbolo “candidato negro” tem uma força inibitória automática, tão contundente em si mesma que, para encarná-lo nas presentes eleições, o Partido Democrata não precisou nem mesmo escolher um negro americano típico, mas sim o que podia haver de mais atípico, de mais extravagante.

Primeiro, Obama não é descendente de escravos, mas sim de proprietários de escravos. O Islam, religião que ele herdou do pai e da qual obteve sua primeira educação na Indonésia, é a cultura mais escravagista dos últimos dois milênios. Sete séculos antes que o primeiro português comprasse seu primeiro escravo africano, os muçulmanos – árabes e negros misturados – já capturavam brancos na Europa, asiáticos na Ásia e africanos na África, levando-os, aos milhões, para servir como escravos em Meca e Medina (muitas vezes capando-os, a caminho, para vendê-los a preço melhor como eunucos) – e continuaram firmes no escravagismo muito tempo depois de o Ocidente ter abandonado essa prática.

Mais atípica ainda é a história moral da família Obama. O pai do senador é um estrangeiro bígamo que só ficou no território americano pelo tempo necessário para engravidar uma coitada e dar no pé. Nunca fez nada pelo bem do filho, que acabou sendo entregue à caridade de um casal de brancos. Dizer que isso é a imagem média da família negra americana seria uma ofensa racista intolerável. Maior ainda é o contraste entre os Obamas e as famílias dos presidentes americanos em geral, de George Washington a George W. Bush: jamais um candidato presidencial nos EUA veio de um lar tão destrambelhado.

Por fim, Obama não é o tipo do “left liberal” que personifica usualmente a ideologia do Partido Democrata. Contrastando com o discurso moderado e patriótico com que ele tem conquistado a confiança dos eleitores, toda a sua carreira, subsidiada desde seus tempos de estudante por pessoas e entidades pró-terroristas, é a de um anti-americano e anticristão radical, discípulo dos Panteras Negras e da “black liberation theology”. No Senado, ele permaneceu fiel a seus mentores e patrocinadores, votando, sistematicamente, mais à esquerda do que qualquer outro senador americano, de hoje ou de qualquer outra época. Se todos os inimigos dos EUA torcem tão ardentemente por ele, não é sem razão. Nenhum político com um currículo tão ruim seria jamais aceito como candidato à presidência americana se o partido que o escolheu não possuísse garantias de que a verdadeira história desse indivíduo permaneceria desconhecida do público, encoberta sob densas camadas de atenuações e desconversas. Independentemente do resultado das eleições, a mera candidatura Obama constitui, por si, o maior e mais bem sucedido esforço jamais tentado para corromper e destruir desde dentro o sistema democrático americano.

Mas é da natureza do blefe ser tanto mais eficiente quanto mais forçado. O fingimento pequeno, verossímil, desperta nas vítimas aquela pontinha de suspeita que as convida ao exercício da inteligência crítica. A farsa exagerada, grotesca, descomunal, faz o público duvidar de que alguém seja idiota o bastante para tentar enganá-lo com um truque tão besta. E por isso mesmo o truque besta funciona. Se Obama fosse um negro americano médio, e além disso fosse apenas moderadamente esquerdista ou levemente desonesto, sua reputação seria facilmente reduzida a cacos. Como ele é monstruosamente atípico, e ademais seu comprometimento com a traição e o crime é o mais profundo e completo que já se viu num candidato à presidência dos EUA, o tamanho do perigo que se anuncia parece grande demais para ser verdade, e o eleitor, iludido pela confiança rotineira na ordem normal das coisas, não percebe que está diante da maior anomalia política da história americana.

 

 

***

 

Em resposta ao meu artigo “Salvando a mentira” (http://www.olavodecarvalho.org/semana/080919dc.html), o Ombudsman da Folha tenta defender seus colegas de redação alegando que, se o jornal mentiu em prol dos Rosenberg nas páginas internas, não o fez na chamada de capa. Como a mentira foi imperfeita – alega o engraçadinho –, salvou-se portanto metade da verdade, o que, para ele, é mais que suficiente como prova da idoneidade do jornal. Notem bem: há uma diferença substantiva entre a mentira material, mesmo em número elevado, e a mente deformada que dilui o próprio critério de distinção entre a verdade e a mentira, fazendo com que esta prevaleça sempre, seja diretamente, seja sob a forma de meia-verdade. No caso da Folha, a deformação foi até elevada à segunda potência, porque, praticada em primeiro lugar pelo redator da matéria, foi em seguida legitimada por aquele que tem nominalmente a incumbência de corrigi-la.


Artigo – Olavo de Carvalho

Outubro 12, 2008

Respondendo a um amigo

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio (editorial), 8 de outubro de 2008

 

Um amigo, cujo nome tenho boas razões para não declarar aqui, envia-me uma carta interessantíssima da qual desejo destacar e comentar duas observações. A primeira refere-se à farsa montada pela Folha de S. Paulo para amortecer o impacto das confissões do espião Morris Sobell, que desmantelaram uma das mentiras mais queridas da esquerda internacional, a alegada inocência do casal Rosenberg (v. www.olavodecarvalho.org/semana/080919dc.html). A segunda, aos rumos gerais do movimento revolucionário no mundo.

Primeira observação: “Se a intelligentzia da esquerda permitiu a Moris Sobell divulgar sua verdade é porque já sabe o poder que conquistou e está limpando seu passado. Como sempre, culpando os mortos. Do ponto de vista do processo de tomada de poder, tambem é uma mudança de paradigma. Mais um ponto de massa crítica foi ultrapassado e a reação ‘alquimica’ se consolida. Sobell ainda deve ter um bocado de poder. Imagine o mundo, agora majoritariamente de esquerda, saber que ele foi o Gagarin da Bomba. É um reconhecimento em vida.”

Comentário: A técnica é sempre a mesma: primeiro a negação categórica, depois o embelezamento retroativo, por fim a confissão, já com valor invertido. Até o Foro de São Paulo, quando saiu das sombras após dezesseis anos de ocultação, veio todo embonecado, com maquiagem e collant, parecia até o Gilberto Gil no baile do Scala Gay. O que foi ocultado como crime passa por uma transfiguração de modo a poder ser alardeado como mérito.

As gerações mais novas nada souberam, e as velhas já se esqueceram, da pletora de eloqüência mendaz que a mídia chique despejou em todo o globo para dar credibilidade postiça à declaração de Fidel Castro, “Quero deixar bem claro que não somos comunistas” – declaração que, alguns anos depois, passado o temor da rejeição internacional, seria substituída pelo seu oposto simétrico: “Quero deixar bem claro que somos marxistas-leninistas.” Este vídeo do youtube – www.youtube.com/watch?v=VNlKFt11Yxc – pode sanar a ignorância de uns e restaurar a memória de outros. Mas mesmo depois disso ambos os grupos continuarão acreditando na mentira cínica de que os terroristas brasileiros dos anos 70 lutavam para restaurar a democracia no Brasil, mentira que fatalmente, no tempo oportuno, será substituída pela confissão ainda mais cínica de que seu objetivo era instaurar aqui uma ditadura comunista nos moldes da cubana, que os financiava precisamente para isso e para nada mais.

Segunda observação: “Por um outro aspecto, olhando os fatos pelo contexto histórico, esse é o caminho da humanidade, não há outro. Durante muito tempo me revoltava contra o que via, hoje vejo a inevitabilidade deste destino. Não adianta me revoltar, me irritar e irritar os outros. É mais util apenas informar, mostrando o que realmente esta se passando. Sim, esse movimento revolucionario terminará. Terminará quando for a tradição sendo atacada por uma nova traição. Mas o mundo ja estará irreconhecivel.”

Comentário: Você tem razão ao dizer que o movimento revolucionário, quando terminar (o que é historicamente inevitável), terá deixado o mundo irreconhecível. É como o vício da cocaína, que o sujeito pode abandonar, mas sem obter nunca os seus neurônios de volta.

Não devemos, é claro, ter a ilusão de reverter o curso dos acontecimentos, mas também não podemos ceder a um fatalismo que só pode nos acanalhar e destruir o sentido da nossa existência. O que temos é de fazer de nossas vidas um testemunho de que o movimento revolucionário não é onipotente, de que é possível sobreviver mesmo sob o seu jugo sem lhe ceder um milímetro da nossa liberdade de consciência, de que é possível cuspir nos ídolos, desprezá-los e humilhá-los sem que eles tenham sequer a cara de pau de fazer algo de substantivo contra nós. O exemplo que deixarmos será, após o fim do pesadelo, a semente da reconstrução do sentido da vida. Deixar esse exemplo é só o que interessa. No Juízo Final, não seremos cobrados pelo que o mundo escolheu fazer, mas apenas pelo que fizemos de nossas próprias vidas.


O SABER DOS ECONOMISTAS “AUSTRÍACOS”

Outubro 8, 2008

O mundo financeiro está em pânico e, como sempre acontece nas crises, os palpiteiros dão plantão em jornais, programas de TV, blogs e outros canais de comunicação. Com as altas proporções da crise financeira americana, que já se espraia pelo mundo, não poderia ser diferente. As galinhas neokeynesianas e as maritacas socialistas descem de seus poleiros e ninhos para anunciar – pela milésima vez – o “fim do capitalismo”, o fracasso do mercado e a derrocada do “Império”, receitando, como sempre, mais intervencionismo do Estado na economia, ou seja, açúcar para portadores de diabete e cachaça para alcoólatras…

Seus barulhentos cacarejos e grasnidos, além de incomodarem nossos ouvidos, são, também como sempre, verdadeiras antologias de erros de avaliação e de confusão entre causas e efeitos.

A crise de hoje começou ontem, ou seja, quando o Fed manteve, por anos a fio, a taxa de juros artificialmente baixa, pensando que assim estaria, de acordo com o establishment acadêmico, estimulando a atividade econômica e perpetuando o crescimento sustentado da economia. Como é difícil lutar contra o establishment! Pois os sujeitos não aprendem com os erros do passado e se julgam os donos da verdade “científica”…

Ludwig Von Mises, em sua “Teoria da Moeda e do Crédito”, de 1912, já alertava que a prática de taxas de juros abaixo da que equilibraria a oferta e a demanda de fundos para empréstimos estimularia a economia durante algum tempo, mas provocaria inflação e desemprego no futuro. Hayek, no início dos anos 30, já vivendo em Londres, publicou “Prices and Production”, em que refinava a teoria misesiana, dando origem ao que ficou conhecido como a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, aperfeiçoada depois por outros expoentes da Escola Austríaca, mas desconhecida por 999 entre 1000 economistas, cuja formação passou a ser exclusivamente macroeconômica, por influência das idéias expostas na Teoria Geral de Keynes, de 1936 e, a partir dos anos 50, por seus seguidores, bem como até por defensores do mercado, como Milton Friedman, os economistas da Escola de Chicago e Robert Lucas e os novos clássicos.

A causa principal, a meu ver, do esquecimento a que foi relegada a Escola Austríaca foram suas recomendações para eliminar o que ficou conhecido como a Grande Depressão dos anos 30: os governos deveriam abster-se de intervir na economia, deixando funcionar o sistema de preços livremente e o mercado reavaliar os valores dos recursos! Sim, isto significaria falências de bancos e de muitas empresas, mas falências fazem parte do jogo, a não ser que os contribuintes sejam convocados compulsoriamente a sustá-las, como o governo americano, mais uma vez, pretende fazer neste momento. É o processo, inevitável, de ajustamento, em que os maus investimentos feitos no passado, baseados em expansão monetária travestida de pseudo-poupança, precisam ser eliminados. Mas isto é impopular hoje, como era impopular nos anos 30, o que levou Roosevelt a adotar as recomendações intervencionistas de Keynes, muito mais palatáveis sob o ponto de vista político.

Assim, firmou-se a idéia de que os governos deveriam controlar a demanda “agregada”, com base no “princípio da demanda efetiva” de Keynes e as corretas teses austríacas lançadas na gaveta do esquecimento, algo que nem a concessão, em 1974, do Nobel de Economia a Hayek conseguiu mudar. Desde os anos 30, praticamente todos os economistas são “keynesianos”, mesmo os monetaristas e os novos clássicos, que prezam a economia de mercado e nada têm de socialistas… Uma lástima, de conseqüências desastrosas não apenas para a academia, mas para a humanidade!

A história da crise de hoje não difere, em sua essência, daquela da Grande Depressão e foi plantada pelas políticas do Fed de manter as taxas de juros artificialmente baixas. Ora, juros baixos tornam viáveis projetos de longo prazo, cujos valores presentes são mais beneficiados do que os dos projetos de curto prazo. A construção civil, claramente, está no primeiro grupo. Assim, foi um negócio não natural, estimulado pelo governo americano. Mas, além dessa tentativa de aceleração forçada da prosperidade, as autoridades americanas imbuíram-se da idéia errada de que, se qualquer pessoa desejasse um empréstimo para comprar uma casa, o governo teria a obrigação de concedê-lo, mesmo que indiretamente, idéia que operacionalizou criando a Freddie Mac e a Fannie Mae, empresas com status jurídico cinzento, já que eram geridas privadamente e tinham capital aberto, mas sempre foram protegidas pelo Estado, com o intuito de subsidiar os empréstimos. E o mercado – que, nessas horas, não falha – antecipou corretamente que tais empresas seriam socorridas pelo Estado em caso de dificuldades. Com medidas desse tipo – taxas de juros abaixo da inflação corrente e subsídios camuflados a hipotecas – qualquer economista conhecedor da tradição “austríaca” poderia detectar, há anos, que surgiriam graves problemas futuros.
E o futuro chegou! Em meados de 2006, as empresas de construção civil sentiram os efeitos da alta da taxa de juros ocorrida e também prevista pela teoria, decorrente do cabo-de-guerra ou disputa pelo crédito, como previram, por exemplo, entre inúmeros outros, os seguintes artigos, todos encontrados em http://www.mises.org/ : Who Made the Fannie and Freddie Threat?, de Frank Shostak, de 5 de março de 2004; Freddie Mac: A Mercantilist Enterprise, de Paul Cleveland, de 14 de março de 2005; Fannie Mae: Another New Deal Monstrosity, de Karen De Coster, de 2 de julho de 2007 e How Fannie and Freddie Made Me a Grump Economist, de Christopher Westley, de 21 de julho de 2008.
No início de 2007, as empresas de financiamento imobiliário sofreram os impactos da política irresponsável do Fed, com a inadimplência das hipotecas. Em meados de 2007, a crise se transmitiu aos títulos lastreados naqueles empréstimos e, no início de 2008, a contaminação atingiu os mercados de crédito, mesmo com a reação keynesiana dos principais bancos centrais, expandindo o crédito. Neste mês de setembro, houve o colapso da centenária Lehman Brothers, a estatização da Fannie e da Freddie, a intervenção em uma das maiores seguradoras privadas (AIG) e, no momento em que escrevo estas linhas, o governo americano acaba de promover a maior intervenção já realizada em um banco naquele país, ao vender partes do Washington Mutual, cujas perdas são estimadas em cerca de US$ 30 bilhões, ao JP Morgan, que pagará US$ 1,9 bilhão por ativos do WM. Em maio último, o JP já comprara o Bear Stearns…
Em suma, o circo está pegando fogo e só há duas maneiras de tentar apagá-lo: a primeira seria deixar que o mercado o fizesse por si próprio, com as perdas, quebras e falências daí decorrentes, mas que teria o efeito de acabar com o incêndio e eliminar todas as suas causas. Exatamente o que Hayek propôs nos anos 30, mas que foi descartado pelos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra, que preferiram apostar no pretenso remédio de Keynes.
A segunda é, naturalmente, a que o governo – ah, os governos! – de Bush preferiu, estimulado adicionalmente pelo fato de ser 2008 um ano de eleições: recorrer aos contribuintes e anunciar um plano de cerca de US$ 1 trilhão, mantendo a taxa de juros abaixo da inflação observada, já que as intervenções do Fed já não se mostram suficientes sequer para tentar reverter o irreversível, que é o ajuste de contas cobrado pelo processo de mercado. A história se repete. O cacarejar das galinhas keynesianas, o grasnar das maritacas anti-mercado e o elemento político, novamente, prevalecem sobre a racionalidade do processo de mercado.
Houve, como em qualquer período de expansão econômica, extraordinários ganhos privados, sob a batuta do Maestro Fed. Agora, na fase de contração, o regente Tesouro tenta reger atabalhoadamente a dodecafonia da socialização das perdas, diante da ameaça de pânico. Isto significará futuros aumentos de impostos para todos os americanos, os que ganharam no passado e os que nada têm a ver com o pato, além de um avanço no intervencionismo estatal na economia que, até o início do século passado, sempre foi citada como exemplo de uma economia realmente de mercado. E, pior, não apagará definitivamente o incêndio: muito pelo contrário, criará novos focos futuros.
Mas não me venham com a bobagem de atribuir a triste situação atual aos mercados ou ao capitalismo, porque ela foi provocada pelo governo! Qualquer estudante iniciado na Teoria Austríaca da Moeda e dos Ciclos Econômicos sabe disso. Mas, infelizmente, há poucos desses estudantes espalhados pelo mundo, pois nosso establishment acadêmico, desde os anos 30, vem preferindo modelar os alunos para irem a um supermercado e comprarem um quilo ou dois de PIB… É a tirania da macroeconomia, uma construção imaginária que, simplesmente, não existe no mundo real, em que não existe PIB, mas milhões de produtos, nem tampouco “a” taxa de juros, mas centenas delas, uma para cada tipo de operação e prazo.
O saber dos economistas austríacos precisa ser resgatado. Ele não curará todos os problemas, mas melhorará consideravelmente a maneira de encarar a economia do mundo real. E, conseqüentemente, melhorará a nossa vida.

Ubiratan Iorio

FONTE: Farol da Democracia Representativa.

Divulgação: Carlos Latorre


Ensino em casa

Outubro 8, 2008

Oziel Alves

Revista Enfoque Gospel

Nem bem os filhos chegam à idade escolar e o questionamento “Em que escola matricular as crianças?” passa a ser uma constante na vida daqueles pais que se preocupam em garantir uma educação de qualidade para os pequenos. Escola pública ou privada? Laica, Católica, Luterana, Presbiteriana, Metodista, Adventista, Batista ou apenas “cristã” sem qualquer viés denominacional?

Para a maioria dos pais, questões orçamentárias, princípios pedagógicos, orientação religiosa, capacitação dos professores e infra-estrutura são fatores determinantes na hora de escolher a instituição; porém, para outros, nada disso — nem mesmo a LDB, uma lei estabelecida pelo Governo Federal, que entre outras coisas, determina ser “dever ‘dos pais ou responsáveis’ efetuar a matrícula dos menores, a partir dos seis anos de idade, no ensino fundamental” —, parece convencê-los de que, lugar de criança é na escola. Para estes pais, a escola tradicional, seja ela qual for, não oferece um ambiente moral, condizente para com seus princípios, tampouco cumpre satisfatoriamente o papel que se propõe quanto a preparar o educando para ocupar seu espaço no mercado de trabalho e na sociedade, por isso ensiná-los em casa, longe dos bancos escolares, lhes parece a melhor opção.

A grande questão, no entanto, é que a educação domiciliar no Brasil — diferentemente de alguns países de primeiro mundo (que há décadas legalizaram o homeschooling) como os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Nova Zelândia etc. —, não é reconhecida pelo Ministério da Educação. Aqui, todo o pai ou responsável que deixar de matricular um filho na escola pode ser processado pelo Ministério Público pelo crime de abandono intelectual, sob penas que vão da multa a perda temporária ou definitiva da guarda da(s) criança(s). Uma ameaça, que apesar do rigor, não impede que muitas famílias continuem firmes no propósito de ensinar no lar.

Esta é a situação da família Bueno, composta pelo casal de professores — Josué, 47 e Darcilia, 37 —, que tem 9 filhos e há 13 anos se dedicam integralmente a educação domiciliar. “Começamos desde que nossa primeira filha era uma nenezinha”, afirma José Bueno, que é formado em Letras e Teologia, exerceu a função de pastor por 11 anos, na cidade de Jardim (MS), mas hoje, depois de ser denunciado à Promotoria Pública pelos próprios familiares, mudou-se para o Paraguai. No entanto, continua a exercer a função de professor na rede pública em uma cidade na fronteira entre os dois países. “Decidimos educar nossos filhos em casa porque entendemos que eles são prioridade em nossa vida e merecem o nosso melhor. Eles nos foram dados por Deus e a Ele daremos conta de sua formação educacional, emocional, cultural e principalmente espiritual”. Quanto à instrução dos pequenos, Bueno é enfático “Os resultados têm sido muito superiores aos que meus alunos, na mesma idade têm alcançado na escola”.

Outro caso bastante divulgado no Brasil é o do casal Cleber Nunes, 44 e Bernadeth Nunes, 40, pais de Davi, Jônatas e Ana — recentemente entrevistados por Enfoque —, que há 2 anos e meio decidiram renunciar à grande parte das atividades profissionais que exerciam, para dedicarem mais tempo a tarefa de educar os filhos no lar. O casal, que decidiu afastar os garotos da escola no início de 2006, após concluírem a 5° e 6° série, respectivamente; na época, foi duramente criticado e, por conseguinte denunciado ao Conselho Tutelar da cidade de Timóteo (MG), que comunicou o fato ao Ministério Público.

Acusados de crime de abandono intelectual, os Nunes decidiram inscrever os dois filhos no vestibular da Faculdade de Direito de Ipatinga (MG) com a finalidade de provar que eles não estavam abandonados intelectualmente, já que a Justiça aplicou a sentença sem sequer ouvir o casal, nem as “vitimas”. E conseguiram, pois os garotos foram aprovados com excelente classificação —, 7° e 13° lugar, competindo em igualdade de condições com candidatos concluintes do ensino médio. “Em casa, nosso filhos estudam cerca de 6 horas por dia, incluindo informática, inglês e hebraico. Brincam e se sociabilizam com os amigos, como qualquer outra criança. Tenho certeza de que aqui o aproveitamento deles é bastante superior ao que vinham obtendo na escola tradicional” afirma Nunes.

Ensino tradicional no Brasil

Segundo o SAEB (Sistema de Avaliação do Ensino Básico), 74,8% dos alunos da rede privada e 97,2% dos estudantes da rede pública, estão abaixo do índice estabelecido pelo próprio Governo Federal. Este panorama refere-se apenas aos conhecimentos da Língua Portuguesa, pois na Matemática e nas Ciências a situação é um pouco pior. O IDEB (Índice Nacional da Educação Básica) mostra que a média brasileira, recentemente divulgada pelo governo, é de 4,2 numa escala de 0 a 10. No PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), aplicado em 2003 e 2006, o Brasil — entre as 57 nações avaliadas — ocupou as últimas posições em todos os critérios analisados.

O IBOPE, através do Instituto Paulo Montenegro (www.ipm.org.br), confirma que na faixa etária de 15 a 64 anos, 72% dos brasileiros podem ser considerados “analfabetos funcionais”, ou seja, conseguem ler palavras mas não conseguem entender um simples texto. “Isso tudo sem falar na exposição constante à violência, ao bullying, às drogas, e à educação sexual precoce e imprópria a que as crianças tem sido submetidas na escola desde as séries iniciais. Se os pais têm direito de tirar seu filho de um hospital e tratá-lo em casa, mesmo que isto signifique risco para sua vida, porque não podemos fazer o mesmo em se tratando da educação, já que ele está exposto a riscos que podem trazer prejuízos irreversíveis? Que contrapartida eu tenho para investir 200 dias por ano em uma instituição com a performance demonstrada pelos índices acima? Vale a pena correr estes riscos?”, questiona Nunes.

A polêmica chamou a atenção dos maiores veículos de comunicação do Brasil, dentre eles a Rede Globo, Record, Band, Rede TV, Revista Época, a Folha de São Paulo e agora a discussão deve se estabelecer, também no Congresso Nacional.

No dia 5 junho de 2008, os deputados federais, Miguel Martini (PHS/MG) e Henrique Afonso (PT/ AC) apresentaram um Projeto de Lei (3518/2008) ao Congresso Nacional, propondo o reconhecimento e a regulamentação da educação domiciliar de 1° a 8 série no país. Um projeto, que, segundo o Dep. Martini, “surgiu como uma resposta aos apelos de inúmeras famílias que nos contataram desejando dar aos filhos uma educação de qualidade desvinculada dos conceitos e valores que algumas unidades de ensino querem impor”.

Como forma de garantir ao Governo um maior controle sobre o método, o projeto propõe ainda que anualmente as crianças sejam submetidas a uma avaliação teórica para verificação do progresso educacional. As provas — aplicadas em instituições da rede pública de ensino —, serviriam como um instrumento de controle para que o Governo pudesse “renovar” ou “cancelar” a licença conforme os resultados da avaliação. Assim, se o projeto for aprovado, pais cujos filhos alcançarem a média mínima nacional poderão ter suas licenças automaticamente renovadas. Porém, aqueles cujos filhos obtiverem resultados abaixo do mínimo estabelecido devem receber uma licença temporária por mais um ano, ficando a “renovação” ou “cancelamento definitivo”, a cargo do desempenho do aluno na prova de recuperação.

Para Julio Severo, escritor, autor do blog “www.escolaemcasa.blogspot.com” e um ferrenho defensor do homeschooling desde 1991, “a proposta de avaliar os alunos não é excelente, mas diante do total controle que o Estado possui nas decisões sobre as crianças, tal opção é o que diríamos ‘melhor do que nada’. Quando o Estado domina tudo numa área, a conquista de um pouco já é uma vitória, por isso precisamos pegar o que está aí no momento, até surgirem oportunidades melhores”.

Outra ponderação é a do professor Luiz Carlos Faria da Silva — pai de Lucas, 10 e Julia, 8 — Doutor em Educação, professor da Universidade Estadual de Maringá (RS) e também adepto do ensino domiciliar, que não concorda com a formulação da lei. “Do jeito que está, a lei restringirá o ensino domiciliar apenas aos pais. E se eles quiserem contratar individualmente um professor? E se os pais quiserem formar um grupo de crianças de duas ou mais famílias para seguir um programa de estudos cujas atividades sejam coordenadas por pessoas de sua confiança?

Ao que tudo indica o debate está apenas começando, ou melhor, sendo retomado, já que há 14 anos, em 1994 um Projeto de Lei (4657/1994) semelhante a este, de autoria do ex-deputado João Teixeira (PL/MT) fora submetido a apreciação da Câmara Federal, porém arquivado no ano seguinte (1995) — já com parecer contrário — devido a não reeleição do parlamentar.

Nos próximos meses a questão que deve nortear a discussão é: “afinal, a educação domiciliar é viável no Brasil, assim como tem sido nos países de primeiro mundo?”. Para Eliane Bragança, supervisora pedagógica da Escola Cristã Jerusalém de Gravataí (RS), a resposta é não. “Acho uma idéia lindíssima para países de Primeiro Mundo. Porém, no Brasil só seria aplicável àquelas famílias com nível intelectual bastante elevado. O papel de educar é dos pais, porém ensinar é para quem teve preparo acadêmico para este fim. Onde ficam a didática, as estratégias e metodologias que a Pedagogia e as Licenciaturas estimulam e incentivam?”

No que depender do Ministério da Educação, a resposta também deve ser negativa, no entanto, a assessoria do Ministro Fernand Haddad, não quis se posicionar, alegando que “faz parte da política de Comunicação Social do MEC não comentar projetos ainda em tramitação no Congresso Nacional, já que durante as apreciações nas Comissões e em plenários, mudanças podem ser feitas ao texto original”.

O tema é novo e a discussão ainda é muito recente no Brasil. Prós e contras serão avaliados. “Sabemos que o debate será polêmico e empolgante. No entanto, o PL não será aprovado sem antes termos a certeza de que ele beneficiará a grande maioria da sociedade brasileira”, afirma Afonso. Não somos contra a escola tradicional. Ela é um instrumento muito importante na sociedade. No entanto, em nome do princípio da liberdade que norteia uma sociedade livre e democrática, como o Brasil, é imprescindível que os pais tenham a liberdade de optar por um outro regime de educação que não este imposto pelo Estado.

O exemplo da família Schurmann

Um dos grandes exemplos de que a educação longe dos bancos escolares pode dar certo é o da família Schurmann, que há décadas tem navegado ao redor do mundo à bordo de seu veleiro. Em 1984, o casal Vilfredo, 59 e Heloisa Schurmann, 60, juntamente com os filhos Pierre, David e Wilhem partiram para uma aventura que duraria 10 anos.

Wilhelm e David eram apenas crianças quando saíram do Brasil. Pierre, adolescente. Os três cresceram a bordo. Estudaram por correspondência. “Aprenderam responsabilidades e a estudar para aprender”, afirma Heloísa, que destaca: “Confesso que sai do Brasil com a alma pesada, pois estava tirando meus filhos da escola e os colocando a bordo e tomando a responsabilidade de educá-los. Ninguém havia feito isso antes aqui no Brasil. Quando chegamos a Nova Zelândia, eles fizeram testes em uma escola e estavam um ano a frente das crianças de sua idade”.

Wilhelm foi o único dos filhos que permaneceu dez anos ininterruptos a bordo. Fez as provas do ensino médio na Austrália e especializou-se em Desenho Técnico. Em 1988, Pierre se formou no segundo grau à distancia e decidiu estudar Administração de Empresas nos Estados Unidos, onde morou até 1994. Em 1991, David aproveitou uma temporada da Família na Nova Zelândia e por lá ficou, graduando-se em Cinema e Televisão. Só voltou ao Brasil em 1999, após trabalhar com audiovisual na Nova Zelândia e nos Estados Unidos. Hoje são todos felizes e tem sucesso em suas profissões.

Há ainda a quarta filha do casal, Kat que também estudou no homeschooling durante a viagem dos 5 aos 7 anos e meio, porém ao retornar ao Brasil freqüentou uma escola tradicional até completar 11 anos, quando a família saiu novamente em viagem pela Costa do país. “Sobre o Projeto de Lei, achamos que a experiência de assumir a educação dos filhos exige amor, dedicação e trabalho. Sei que o ensino domiciliar não é uma opção para todos, mas se os pais têm aptidões para ensiná-los, porque não dar-lhes a possibilidade de escolha?”, opina Heloísa.

Fonte: Revista Enfoque Gospel

Publicado originalmente no blog de Julio Severo.

Divulgação: Carlos Latorre


Parem os resgates!

Outubro 6, 2008

Esse discurso foi feito em 13 de setembro de 2008, no Vancouver Mises Circle.
Por Lew Rockwell

Foi uma façanha singular do livro America’s Great Depression, de Murray Rothbard, ter demonstrado que a Grande Depressão foi uma crise criada e prolongada pelas tentativas do estado de evitar uma inevitável retração econômica. A resposta da política econômica ao declínio – impressão de mais dinheiro, sustentação artificial dos preços, arregimentação fascista de sindicatos para se tentar manter o nível de empregos, e uma série de vários outros artifícios – levou a um colapso dos preços da bolsa de valores e a uma liquidação sem precedentes de vários bancos, além de ter espalhado desordem por cada setor da economia. Algo que poderia ter durado de um ano a 18 meses, acabou durando 16 anos. (Ver Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão e O New Deal ridicularizado (novamente)).

Naquela época, Ludwig von Mises tentou alertar para os perigos da intervenção. Veja seu livro Causes of the Economic Crisis. O mesmo fez F.A. Hayek. Veja o seu livro Prices and Production. O mesmo fez também Lord Robbins. Veja o seu livro The Great Depression.

E, mesmo assim, essa visão ainda não se tornou comum. A sabedoria convencional segue dizendo que a Depressão foi um desastre natural, um furacão que varreu a sociedade e que precisava ser detido pelo governo. Uma outra visão, encontrada no trabalho dos monetaristas, diz que a Depressão foi causada pela omissão do governo em criar oceanos de papel-pintado. Essa parece ser a visão de Bernanke.

Os EUA seguem prisioneiros cativos dessas visões falaciosas de causa e efeito. É por essa razão que temos visto uma quase unanimidade na defesa do socorro financeiro (chame do que você quiser: tutela, guarda, proteção, nacionalização, socialização, não importa) dado às gigantes do setor imobiliário Freddie Mac e Fannie Mae.

A Freddie e a Fannie carregam aproximadamente $5,3 trilhões em compromissos hipotecários e outros $2,4 trilhões em exposição financeira. O custo total dessa operação de resgate é desconhecido; pode chegar a $2 trilhões, sendo que a exposição futura é incalculável.

Essas duas instituições da era do New Deal foram fundadas com a intenção de acelerar o processo de aquisição de imóveis por indivíduos que, em condições normais, todos os bancos considerariam indignos de crédito. Mais à frente, já nos governos Johnson e Nixon, essas duas instituições ganharam permissão legal para se expandirem sem limites.

O motivo para tal foi um clássico esforço bipartidário: a aquisição universal de imóveis. Gerou-se o consenso de que todos os americanos tinham um direito natural à casa própria. A esquerda apoiava esse esquema, pois o considerava redistributivo. A direita também o apoiava, mas estava olhando para a suposta virtude moral associada à unidade familiar em uma morada suburbana. E assim nasceu o maior esquema de transferência de riqueza da história americana, além da Previdência Social e da indústria bélica.

Em uma economia de livre mercado e com moeda forte, empréstimos estão diretamente ligados à capacidade de pagamento. No início, eles estão disponíveis apenas para os ricos. À medida que a prosperidade vai se espalhando, a capacidade de crédito vai aumentando. Qualquer intervenção governamental concebida para injetar esteróides nesse processo vai acabar inevitavelmente criando aquilo que Rothbard chamou de aglomeração de erros.

É uma grande hipocrisia que muitas pessoas atualmente estejam condenando o sistema bancário por ter falhado imensamente em distinguir quem deveria e quem não deveria ganhar uma hipoteca. Em um livre mercado, o sistema bancário administra essa questão perfeitamente. Diferenciar aqueles que devem receber empréstimos daqueles que não devem é a principal função de um sistema competitivo. O mercado calibra isso acuradamente. Se um financiador fizer uma análise falha sobre um mutuário, um outro financiador estará lá para corrigir o problema e lucrar.

Mas se você tentar acelerar artificialmente esse processo de prosperidade e decretar que cada pessoa que queira um empréstimo deve ganhar um, você cria uma situação na qual haverá problemas no futuro. Foi exatamente isso que o governo fez. Ele criou a Freddie e a Fannie para que houvesse empréstimos subsidiados. Ele inventou uma falsa privatização que secretamente socializou os prejuízos. O status jurídico dessas empresas – que eram geridas privadamente e tinham o capital aberto, mas que sempre foram protegidas pelo governo – nunca ficou claro; mas os mercados há muito assumiram que elas seriam salvas caso necessário.

Qualquer um pode constatar o risco moral que havia no âmago dessa política. Mas o ponto em questão é que o julgamento do livre mercado sobre quem deveria levar o quê estava sendo sobrepujado. Ora, mas quem iria se preocupar com isso? Isso não deveria ser um obstáculo para a promoção do sonho americano! E de fato, todo o país está pagando hoje por esse erro meio século após essa política ter se tornado uma prioridade nacional. Como os pastores evangélicos gostam de dizer, as rodas da justiça moem vagarosamente, mas moem poderosamente bem.

Só há um problema com a aplicação desse princípio para essa situação: não haverá justiça. Se a justiça prevalecesse, os prejuízos recairiam apenas sobre os responsáveis por tudo, ao invés de serem socializados para todo o país.

Se uma política de livre mercado fosse adotada de hoje em diante, o resultado não seria complicado. Os ativos e passivos da Fannie Mae e da Freddie Mac seriam leiloados no livre mercado. É verdade que muitos empréstimos seriam cancelados.

Qual o nível da crise que resultaria dessa genuína política de privatização? Sim, a imprensa ficaria ensandecida e os graúdos das finanças iriam sofrer. Mas com o tempo, os mercados iriam reavaliar os recursos e uma importante lição seria aprendida. Os empréstimos mais sólidos seriam assumidos por empresas financeiramente responsáveis e levados até sua maturação. O valor dos imóveis cairia e muitas pessoas teriam de se mudar para casas mais baratas. Somente assim a economia estaria novamente sobre fundamentos sólidos.

Para um governo que finge favorecer o livre mercado, essa possível solução sequer foi considerada. Ao contrário, o governo disse lamentar muito ter de disseminar os custos desse erro para toda a população. Ao invés de consertarem o erro, eles apenas o pioraram, pois acabaram ressaltando a idéia de que a América não tolerará falências de empresas; e quanto maior for a empresa, maior a probabilidade de ela ser salva.

Por exemplo, no dia seguinte à nacionalização – um dia que viverá na infâmia – o The New York Times classificou a medida como “uma ação sensata e tranqüilizante”. O Los Angeles Times escreveu que o resgate era “inevitável”, e reclamou que a Freddie e a Fannie deveriam ajudar apenas 20% e não metade dos mutuários. Steve Forbes, em sua revista, escreveu que uma “ação drástica” tinha de ser tomada porque, caso contrário, um calote “teria criado a pior crise financeira desde a Grande Depressão”.

Já o Wall Street Journal fez um editorial contra os Democratas e suas reformas propostas, mas em momento algum se opôs ao salvamento; ao invés disso, o jornal simplesmente observou que “estamos mal”. Além disso, publicou também um artigo da dupla McCain/Palin dizendo que o resgate foi “tristemente necessário”, não obstante a dupla ter prometido reformas que iriam “exigir os mais elevados padrões de contabilidade, de prestação de contas e de transparência jamais exigidos por um governo”. Bom, só que tem um detalhe: ninguém melhor do que o mercado para exigir padrões tão elevados. Mas você tem de entregar essas instituições para o mercado se quiser obter tais padrões.

Não é interessante como todas essas pessoas acreditam que apenas balançar a varinha mágica da impressão de dinheiro é capaz de fazer toda a realidade simplesmente desaparecer? Essa inacreditável superstição parece ser a postura oficial de todo o establishment americano. E pensar que todos gostamos de nos lisonjearmos a nós mesmos, dizendo que já atingimos a maturidade de viver numa era em que não há ilusões!

Quanto àqueles que deveriam saber um pouco mais, Greg Mankiew, autor dos mais vendidos livros-texto de economia, escreve que “já que tudo isso iria acontecer mais dia menos dia” foi “melhor ter resolvido isso logo de uma vez”. O blog de economia Marginal Revolution, que supostamente defende o livre mercado, alerta que se não fosse o resgate, “a maior parte do sistema bancário americano estaria insolvente”, sendo incapaz de mostrar que um sistema que precisa ser salvo por meio de papel-moeda de curso forçado já se encontra insolvente. (Ver mais aqui).

O Cato Institute concorda que o Tesouro teve de salvar a indústria hipotecária porque “foi forçado a fazê-lo”, além do que Fannie e Freddie são de fato “grandes demais para falir”. A Heritage Foundation concorda que foi uma “medida necessária” e uma “ação vital ruma a uma reforma completa”.

Sem dúvida, essas pessoas têm várias recomendações sobre o que deveria ter sido feito no passado, e muitas idéias sobre o que deve ser feito no futuro. Quanto ao presente, eles se mostram prontos para propagandear em defesa da maior operação socialista da história americana. Em todos esses casos acima demonstrados, o que estamos vendo não é um problema de educação econômica, mas, sim, a falta de coragem de se opor ao estado quando mais se é necessário.

Bastante solitários no grupo daqueles que previram a calamidade e de fato se opuseram ao resgate estão aqueles que foram escolados na tradição misesiana, pessoas como Nouriel Roubini do RGE Monitor, o investidor Jim Rogers, além é claro dos nossos próprios estudiosos, como Mark Thornton, George Reisman, Robert Blumen e todos os nossos acadêmicos adjuntos, que disseram aberta e claramente que isso era um erro apavorante, um erro que irá piorar o atual colapso e que torna os EUA um país mais socialista do que a China.

É claro que Ron Paul também esteve certo todo o tempo, como a evidência comprova. E apenas ele, em todo o Congresso, terá algo inteligente para dizer sobre todo esse fiasco. Na verdade, há mais de cinco anos ele disse o seguinte: “Se a Fannie e a Freddie não tivessem o apoio do governo federal, os investidores iriam exigir que ambas fornecessem garantias de que seguem práticas aceitáveis de gerenciamento e contabilidade…. Ao transferir o risco de um amplo calote de hipotecas, o governo aumenta a probabilidade de um doloroso colapso do mercado imobiliário. E isso ocorre porque os privilégios especiais dados a ambas as empresas distorceram todo o mercado imobiliário ao permitir que elas atraiam um volume de capital que não poderiam atrair sob puras condições de mercado. Como resultado, o capital é tirado de seu uso mais produtivo e desviado para o setor imobiliário. Isso reduz a eficácia de todo o mercado e, consequentemente, reduz o padrão de vida de todos os americanos.”

No fim das contas, estamos falando do sistema que apresentou um veredicto sobre o mercado imobiliário: o sistema de preços. Os preços não mentem e não há nada que possamos fazer para revertê-los. Nem mesmo o mais poderoso governo do mundo pode. Qualquer tentativa vai causar calamidades. Os economistas austríacos entendem isso, mas ninguém mais parece entender.

Ataquemos agora essa alegação de que não salvar financeiramente o sistema e não nacionalizar o mercado hipotecário levaria a uma crise financeira no mesmo nível da Grande Depressão. Na verdade, foi a própria luta contra a Depressão que a aprofundou e fez com que ela durasse até o final de Segunda Guerra Mundial. É preciso entender isso se quisermos entender a verdadeira lição da Depressão. Ao invés de deixar os preços caírem e deixar que os maus investimentos fossem liquidados, o governo tentou por anos a fio manter os preços altos, empregar as pessoas em programas improdutivos, criados apenas para gerar postos de trabalho, e planejar centralizadoramente toda a economia.

De 1920 a 1922, houve um colapso financeiro tão robusto e sistemático quanto o de 1929. A diferença é que o governo nada fez para tentar resolvê-lo. Como resultado, a crise se resolveu sozinha e se tornou um evento esquecido. Hoover e Roosevelt, em contraste, tentaram usar seus poderes sobre a economia e sobre o sistema monetário para tentar manter os preços altos e a liquidez do sistema bancário – exatamente aquilo que todos estão fazendo atualmente. A conseqüência foi impedir e adiar o inevitável processo de reajustamento.

Eles acreditavam que os preços baixos eram a causa e não a conseqüência da recessão. Esse erro soa familiar? Em outras palavras, a Grande Depressão somente se tornou Grande porque o governo seguiu exatamente as mesmas políticas que a administração Bush vem seguindo em relação ao mercado de hipotecas.
Não faz sentido alertar que estaremos revivendo o passado caso não façamos exatamente as mesmas coisas que de fato tornaram o passado tão ruim quanto foi. A verdade é exatamente contrária: para se evitar outro declínio econômico que tenha a duração da Grande Depressão, precisamos evitar os erros do passado, dentre os quais as políticas que tentavam manter vivas, em tempos econômicos difíceis, empresas e indústrias totalmente insolventes.

O que deveria ter acontecido em 1929 é exatamente o que deveria acontecer agora. Deixem o sistema de preços prevalecer livremente! O governo deve sair completamente do caminho dos acontecimentos e deixar o mercado reavaliar o valor dos recursos. Sim, isso significa falências. Sim, isso significa que vários bancos irão fechar. Mas tudo isso faz parte do sistema capitalista. É assim que aconteceria em uma economia de livre mercado. O que é lastimável não é o processo de reajustamento; o que é lastimável é que esse processo tenha se tornado necessário em decorrência das intervenções anteriores.

Deixe-me dizer isso bem diretamente: eu não acredito nem por um segundo que se o governo não nacionalizar a Freddie e a Fannie o mundo deixará de existir. Aqueles que dizem o contrário estão tentando assustar a população. Essa mesma estratégia é usada recorrentemente para todas as outras grandes demandas do regime. Foi assim com o NAFTA, com a OMC, com a guerra ao terror, com a guerra à gripe aviária, com a nacionalização da segurança aeroportuária, e com tudo mais.

Se o governo se preocupasse apenas em vender todos os ativos das duas gigantes hipotecárias, poderíamos até não saber ao certo o que aconteceria, mas teríamos a tranqüilidade de saber que o mercado sempre tem um modo de encontrar valores e se reajustar. Eu esperaria aproximadamente 18 meses de dificuldades. Vários bancos iriam quebrar, da mesma maneira que várias outras empresas quebram diariamente no livre mercado. Os preços dos imóveis cairiam ainda mais, assim como todos os preços de mercado estão sujeitos a mudanças. Mas o processo de reajustamento seria suave e racional. E o que é mais importante: todos os americanos parariam de viver uma mentira e de acreditar em uma ilusão.

Contrariamente ao que dizem todas as cabeças pensantes, seja na mídia ou nos blogs, não há nada que comprove que essa nacionalização é algo inevitável. Basta deixar o mercado livre para que ele possa administrar todo o processo de reajuste, aconteça o que acontecer. Garanto que essa solução é melhor do que imprimir mais de um trilhão de dólares para salvar essas empresas insolventes.

E, por fim, um adendo: a atual situação não é uma que será resolvida com a “escolha de líderes corajosos”. Isso não vai acontecer. Precisamos é de uma garantia. Precisamos de um sistema que torne impossível para o governo fazer essas coisas mesmo se quisesse. Esse sistema se chama padrão-ouro. Pense nas pré-condições que possibilitaram à administração Bush decidir em apenas uma tarde despejar mais de um trilhão de dólares no mercado, para garantir 75% das hipotecas dos EUA. Trata-se de um sistema que tem como premissa a capacidade do governo sair imprimindo quantias ilimitadas de dinheiro.

Se o governo não tivesse como fazer isso, ninguém estaria hoje falando de resgates financeiros. Assim como ninguém estaria falando em garantir os passivos da indústria automotiva. Qualquer tipo de guerra, seja no Afeganistão, no Iraque ou na Rússia, bem como manter tropas em mais de 100 países, estaria totalmente fora de cogitação. Se não existisse um banco central, toda a seção política das livrarias teria de ser reclassificada como ficção cientifica.

Ademais, se o governo tivesse de tributar as pessoas diretamente por todos esses gastos ele não duraria dois dias. Qualquer sugestão de criação de um novo programa seria confrontada com a pergunta sobre como se daria o financiamento para tal.

Por outro lado, um sistema monetário que se baseia em um papel-moeda de curso forçado e em um banco central é absolutamente tentador para políticos e burocratas corruptos. E pior: corrompe-os mais ainda. E a tragédia é que o uso que eles fazem da impressora não apenas os corrompe, como também impõe custos horríveis e intoleráveis para o resto da sociedade, na forma de inflação de preços e ciclos econômicos.

E a corrupção só piora com o tempo. Já estamos há 37 anos vivendo em um mundo movido por papel-moeda sem qualquer lastro e gerido por vários bancos centrais. Os políticos do passado eram um pouco reticentes em usar todo o poder que tinham; os atuais, nunca foram tão descarados. Seus escrúpulos parecem ter desaparecido pra sempre, suas consciências completamente ocultadas pelo nefasto poder que possuem. E a classe jornalística vem seguindo a tendência, acreditando que não há limites.

A verdade é que todas essas contas deverão ser pagas. Mais dia menos dia a conta virá. Entender isso é entender a necessidade de uma reforma radical. Seria estupefaciante contemplar os resultados gloriosos de uma reforma monetária completa, uma que adote o padrão-ouro. A inflação pararia de corroer nosso poder de compra. Os ciclos econômicos praticamente acabariam. O comércio internacional não mais seria perturbado por oscilações selvagens nos valores das moedas. Porém, dentre todos os benefícios, esse seria o maior: acabariam os decretos arbitrários e autoritários. O governo seria forçado a restringir seus métodos. A liberdade seria restabelecida.

O fato é que as conseqüências maléficas do atual sistema monetário inevitavelmente se espalham por toda a sociedade, destruindo sua base econômica e corrompendo a moral da sociedade. Esse sistema estimula a ilusão irracional de que podemos magicamente gerar riquezas através do simples ato de se imprimir dinheiro. Mas a tentativa de fazê-lo gera conseqüências catastróficas. Como Mises escreveu: “A inflação é o complemento fiscal do estatismo e do governo despótico. É uma engrenagem do complexo de políticas e instituições que gradualmente levam ao totalitarismo.”

É nauseante o fato de que são poucas as vozes fora da Escola Austríaca que irão se opor a essa política. E temo que as conseqüências dessa política serão sentidas durante muitas décadas por vir. Mas ainda há tempo para se reverter o curso. O despotismo não é algo inevitável. Não estamos sendo forçados para esse caminho. Ainda podemos abraçar a liberdade. Se entendermos que a liberdade é inseparável de um sistema monetário forte, então devemos abraçar esse sistema também. Pode me chamar de saudosista, de adorador de relíquias, o que seja, mas eu confio mais no padrão-ouro do que em nossos governantes. E, no fim, é essa a escolha que teremos de fazer.

Lew Rockwell é o presidente do Ludwig von Mises Institute, editor do website LewRockwell.com e autor de Speaking of Liberty.

FONTE: Farol da Democracia Representativa.

Divulgação: Carlos Latorre


Citação

Outubro 5, 2008

“How do you tell a Communist? Well, it’s someone who reads Marx and Lenin. And how do you tell an anti-Communist? It’s someone who understands Marx and Lenin.”

Ronald Reagan