Quem escondeu o óleo?

Junho 13, 2008

por Alvaro Vargas Llosa em 13 de junho de 2008

Resumo: Desfazer os erros que nos levaram aonde estamos custará caro e será extremamente impopular. Para começar, é bom colocar a culpa em quem a tem.

© 2008 MidiaSemMascara.org

Quem é responsável pelo astronômico preço do petróleo? A maior parte da culpa – como foi mostrado nas recentes farsas no Congresso dos EUA, com executivos das petroleiras defendendo seus salários sob questionamentos de congressistas beatos e preocupados – estão sendo posta nas empresas de petróleo.

Nos países europeus, manifestantes estão denunciando o governo por não ter tomado ações imediatas para proteger os consumidores. Nos jornais, de Hong Kong à Austrália e a Buenos Aires, traders responsáveis por US$ 260 bilhões atualmente investidos em fundos de commodities estão sendo condenados como especuladores.

Na verdade, esses não são os culpados. Durante anos, países com petróleo como Rússia, Venezuela e México têm desarrumado sua própria capacidade de produção para usá-la como arma política. Isso não significa que eles não estão produzindo milhões de barris por dia, mas significa que estão incapacitados de aumentar a produção para aumentar a demanda — e o mercado não conta com eles para aumentar o fornecimento de petróleo no futuro.

Para piorar a situação, a política monetária nos Estados Unidos, a maior economia dos Estados Unidos, tem sido muito frouxa nos últimos anos, ajudando a alimentar o que alguns observadores estão chamando de bolha do petróleo .

Se também considerarmos que nas últimas três décadas os EUA, representando um quarto da demanda mundial por petróleo, tem visto sua capacidade de refino se limitar por causa das restrições ambientais, o que temos é, bem, o preço da gasolina chegando às alturas.

Todas essas causas levam a um pecado original: políticos interferindo no processo de demanda e fornecimento. Adicionando um insulto à injúria, agora temos políticos lançando a esmo propostas que, no máximo, não vão fazer nada para solucionar o problema (imposto de feriados) e, no pior cenário (como aumentar impostos das cinco empresas da Big Oil , usando leis antitrustes para frear a “concentração de mercado”, aumentar os subsídios a combustíveis alternativos, controle de preços), vão manter o petróleo no subsolo.

Durante boa parte de sua presidência, a idéia de Vladimir Putin de diversão era jogar os proprietários das grandes empresas na cadeia e assumir o negócio deles. Como resultado, Rosneft e Gazprom, os gigantes de energia controlados pelo governo, têm mais de metade das reservas de petróleo e gás da Rússia. Putin também aumentou os impostos sobre o petróleo para 90%.

Tudo isso deu ao potentado russo força política e econômica para chantagear os importadores europeus dos hidrocarbonetos russos e pressionar países vizinhos, como a Ucrânia.

Quando a produção russa de petróleo aumentou para 9 milhões de barris por dia, parecia que Putin era Midas . Mas, ao mesmo tempo, a tecnologia russa estava ficando defasada e os investimentos de capital necessários para garantir um aumento saudável na produção não estavam sendo realizados.

O resultado: a produção caiu neste ano pela primeira vez. Nenhum trader está especulando que a Rússia não vai ajudar a baixar o preço do petróleo no futuro.

Uma história parecida pode ser contada na Venezuela, onde nos últimos anos, o presidente Hugo Chávez conseguiu reduzir a produção em um milhão de barris, segundo dados da Opep. A petroleira estatal, PDVSA, é um instrumento-chave da ridícula Revolução Bolivariana de Hugo Chávez, com bilhões de dólares sendo transferidos para outros países em vez de investidos no aumento da capacidade de produção. No México, o Projeto Cantarell , o segundo maior campo de petróleo do mundo, tem visto sua produção despencar nos últimos anos porque a legislação não permite que o capital privado manche a honra nacional com sua sede por lucro. Mas o fornecimento insuficiente não é o único fator agindo.

Um grupo de economistas, entre eles Paul van Eeden e Frank Shostak, argumentam de forma convincente que a política monetária frouxa do Federal Reserve , entre janeiro de 2001 e junho de 2004, e novamente desde setembro de 2007, alimentou a inflação. Ao fazer isso, a política monetária induziu investimentos ruins na economia -empreendimentos empresariais que não se realizariam de outra forma e que agora aumentam a demanda por petróleo. É claro, em outros países – na China em particular – a inflação causada pela política monetária também engrossou a demanda por energia.

As pessoas estão certas em estarem irritadas. Não há nenhuma razão para que um barril de petróleo possa custar tanto e para que numa economia tão produtiva quanto a dos EUA as pessoas paguem US$ 4 a mais por um galão de gasolina.

Desfazer os erros que nos levaram aonde estamos custará caro e será extremamente impopular. Para começar, é bom colocar a culpa em quem a tem.


Amazônia verde sob a ameaça branca

Junho 13, 2008

por Sergio Kapustan em 12 de junho de 2008

Resumo: Os verdadeiros objetivos na Amazônia deveriam ser: controlar a “invasão branca” de ONGS, as fontes de água, explorar as ricas jazidas de minérios e povoar as zonas de fronteira, para garantir a integridade do território nacional sem agredir o meio ambiente.

© 2008 MidiaSemMascara.org

Controlar a “invasão branca” de ONGs, principalmente estrangeiras, assegurar o controle da água e explorar ricas jazidas de minérios – grande parte em reservas indígenas e praticamente inacessíveis devido a legislação em vigor – e povoar as zonas de fronteira, para garantir a integridade do território nacional sem agredir o meio ambiente.

Esses foram os principais temas debatidos no seminário “A realidade da Amazônia – Soberania ameaçada, farsa?’, realizado ontem (10/06), no clube Espéria. Segundo os participantes, o evento foi considerado um marco por mobilizar e entusiasmar setores da sociedade civil organizada em defesa da Amazônia e da soberania brasileira.

De acordo com o general Luiz Gonzaga S. Lessa, ex-comandante militar da região, de 5 milhões de quilômetros quadrados espalhados em nove estados, organizações e governos estrangeiros fazem campanha internacional aberta para retirar a Amazônia do controle brasileiro.

A população indígena é de cerca de 350 mil índios. As terras indígenas representam 12% do território brasileiro. Para ele, a política da Funai (Fundação Nacional do Índio) isolou os índios. “Há um imenso vazio demográfico que precisa ser explorado, mas não a todo custo”, afirmou o militar, ao abrir o evento.

Em sua explanação, Lessa divulgou um estudo da ONG Contas Abertas, com base no Sistema Integrado de Administração Financeiras (Siafi), que mostra o vertiginoso aumento de organizações não-governamentais, entre 2001 a 2006, atuando dentro do País.

De 22 mil, em 2002, elas pularam para cerca de 260 mil em 2006. Em 2007, o número subiu para 276 mil e 100 mil trabalham na Amazônia. A população indígena é estimada em 350 mil índios, ou seja, há 3,5 índios para cada ONG . “Há uma verdadeira invasão branca na Amazônia sem ninguém dar um tiro sequer. Trata-se de um neo colonialismo que estamos aceitando voluntariamente”, denunciou o general.

Riqueza natural – Ao defender a soberania nacional, Lessa afirmou que o Brasil detém hoje 20% da água doce da superfície do planeta e 80% dela encontra-se na bacia amazônica. “Fala-se que a próxima guerra mundial será pelo controle da água. Veja a sua importância estratégica mundial”, chamou a atenção.

O general falou também sobre a polêmica em torno da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, na divisa do Brasil com a Venezuela, que possui 12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo e inúmeras riquezas, como o urânio, abundante e inexplorado. “Roraima, que tem sua superfície ocupada por reservas indígenas em quase 50%, representa o grande embate internacional contra o Brasil”, afirmou.

Políticas públicas – Em sua fala, o líder dos índios macuxis, Jonas de Souza Marcolino, da Raposa Serra do Sol, responsabilizou a Funai, entidades religiosas e ONGs de isolarem os povos indígenas.

“Muitas ONGs têm influência negativa sobre a massa indígena”, contou o índio, sob forte aplauso. “O que ocorre em Roraima é uma destruição de nossos valores nacionais. O estado expulsa os brasileiros e deixa lá os estrangeiros”.

Zona de Fronteira – Terceiro orador a falar, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) afirmou que a demarcação de reservas em zona fronteiriça representa um risco à segurança nacional.

Durante o seminário, foram citados três focos de guerrilha das FARC, na divisa do Brasil com a Colômbia, e sua aliança com o narcotráfico. “A edificação de vilas e cidades é uma forma racional de ocupação de nossas fronteiras, que estão abandonadas”, afirmou.

Lição imprópria – Último palestrante, o professor Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e articulista do Diário do Comércio, disse que a comunidade internacional, principalmente européia, não tem o direito de cobrar o Brasil. Segundo Rosenfield, a Europa conservou só 0,3% de suas florestas nativas. “Querem nos ensinar a lição, quando eles é que devem aprender”.

O prefeito de Paracaima (RO) e líder da Associação de Arrozeiros da reserva Raposo Serra do Sol, Paulo César Quartiero, que chegou a ser preso pela Polícia Federal, acusado de porte ilegal de explosivos e formação de quadrilha, também defendeu a soberania. “Está na hora de termos um plano de desenvolvimento da Amazônia que dê oportunidades a todos e proteja nossa fronteiras”, afirmou.

Publicado pelo Diário do Comércio em 11/06/2008


Calor e muita confusão na regulação global.

Junho 13, 2008
por Bethany Stotts em 11 de junho de 2008

Resumo: Estará a América em vias de seguir o caminho da Europa?

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Com o Projeto de Lei Lieberman-Warner [*] próximo da votação torna-se cada vez mais importante examinar as motivações que estão por trás do ativismo do aquecimento global. Václav Klaus, Presidente da República Tcheca disse numa conferência no jantar anual do Competitive Enterprise Institute, na última semana, que ele acredita que a mudança climática é o item político ideal porque seu dogma não pode ser desmentido.

“Temo que levará séculos para se conseguir uma prova de que o planeta não foi destruído nem se encontra ameaçado de destruição – e este é o truque do moderno ambientalismo… Os políticos ambiciosos que tentam dominar o mundo e seus cidadãos vêm sonhado há décadas com encontrar esta maravilhosa doutrina, imunizada contra a realidade”.

Este clima alarmista tem seu custo, argumenta Klaus, pois é eminentemente contrário ao bem estar humano. “Se tomarmos a sério os argumentos dos ambientalistas verificaremos que se trata de uma ideologia anti-humana. Defendem como causa fundamental dos problemas mundiais a expansão do homo sapiens”, escreve Klaus no seu livro Blue Planet In Green Shackles (que pode ser traduzido por Um Planeta Azul com Algemas Verdes) (http://www.amazon.com/Planet-Green-Shackles-Vaclav-Klaus/dp/B001A3W3BK). Klaus foi agraciado este ano com o Prêmio Julian Simon do CEI por defesa do livre mercado. O CEI também traduziu seu livro para o Inglês, já existindo traduções para o Alemão, Holandês e Polonês e, em breve, para o Russo.

Os discursos de Klaus só mereceram a cobertura do CSPAN e da Fox News. Washington Post, Los Angeles Times, e New York Times ignoraram sua visita aos EUA.

“Agradeço a oportunidade de visitar novamente seu grande País, o qual – apesar de muitas críticas necessárias e justas – permanece o mais livre de todos os países do mundo e fonte de inspiração para todos nós”, disse à assistência, acrescentando: “Enfatizo principalmente isto pela minha crescente frustração com os desenvolvimentos do outro lado do Atlântico, de onde venho”.

Mas estará a América indo na mesma direção da Europa? O projeto Lieberman-Warner, se aprovado, imporá aos EUA uma espécie de limitar-e-negociar (cap-and-trade) as emissões de carbono e determinará uma queda de 70% na emissão de gases de efeito estufa até 2050. De acordo com a Heritage Foundation, o Produto Interno Bruto, um indicador importante da riqueza nacional, cairá US$ 436 bilhões em 2030 como resultado desta legislação. O último relatório da Heritage mostra que a lei aumentará os custos de energia doméstica em US$ 447 bilhões anuais e levará ao desaparecimento de milhões de empregos. De acordo com o Escritório do Orçamento do Congresso a lei imporá anualmente um incremento de US$ 90 bilhões às propriedades privadas, entre 2012 e 2016, o que excederá o limite legal anual de US$ 136 milhões estabelecido pelo Unfunded Mandates Reform Act (UMRA) (www.sba.gov/advo/laws/unfund.pdf) como relata a CBO.

Klaus traçou uma ligação direta entre o marxismo e o moderno ambientalismo em sua conferência no National Press Club: “Como seus predecessores, os ambientalistas estão convencidos de que têm o direito de sacrificar o homem e sua liberdade para tornar realidade sua idéia”, disse ele. “No passado, era em nome das massas de proletários; agora, é em nome do planeta. Estruturalmente há uma enorme semelhança”, acrescentou.

O Presidente tcheco admite que sua atual perspectiva é fortemente influenciada por sua vida sob o comunismo, mas diz que “gostaria de sublinhar que eu não vivo no passado e não vejo as ameaças à sociedade no futuro como oriundas da velha e fora de moda ideologia comunista. Pelo contrário, as ameaças vêm com novo nome mas com o mesmo objetivo: restrições governamentais à liberdade”. “Estamos testemunhando a interpretação absolutista do princípio acautelador sendo usada pelos ambientalistas para justificar qualquer forma de intervenção e proibição”, escreve Klaus em seu livro. “Tudo que eles precisam para implementar estas restrições é a pregação nobre e moralizadora sobre o futuro e demonstrar sua ‘preocupação’ à la Gore, com a humanidade”. Argumenta, então, que muito melhor seria a análise de custo-benefício.

Críticos dos esquemas “cap-and-trade” de engenharia social argumentam que os custos do alarmismo das mudanças climáticas pode ser dramático. “Se eliminarmos os fertilizantes à base de hidrogênio, reduziremos a produção de grãos à metade imediatamente” disse Dennis Avery, do Hudson Institute; “Metade do mundo passará fome”.

Um outro programa governamental, a produção de etanol, dá uma mostra da perturbação imediata do que Lieberman-Warner pode envolver. “O que fizemos nos EUA e na Europa cria uma situação que, por várias razões, mas primariamente ambientais, chamamos de queimar comida como combustível e destruir o habitat ambiental que serve para produzir aquela comida” argumenta Iain Murray, Fellow do CEI e autor de The Seven Really Inconvenient Truths (http://www.amazon.com/Really-Inconvenient-Truths-Environmental-About-Because/dp/1596980540).

Pela lei aprovada no último ano os EUA queimarão maiores quantidades de comida para fazer combustível automotivo, “isto num mundo onde já há falta de alimentos e desnutrição e cuja demanda de comida dobrará nos próximos 40 anos”, disse Murray. Lieberman-Warner poderá ser bem pior que o mandato sobre o etanol. “Os desafios colocados por este último são apenas uma pequena fração daqueles que advirão de Lieberman-Warner”, escreveram autores da Heritage. Eles classificam a lei como uma promessa de “perigos extraordinários para a economia Americana”.

Numa nota bem humorada Klaus fez piada dos esquemas de limite de emissão de carbono de Al Gore: “Eu fui o único nesta sala a pedir ‘por favor, podem conseguir água sem gelo?’. Meus vizinhos à mesa disseram ‘este é um verdadeiro europeu porque na Europa eles têm geladeiras pequenas e não têm gelo suficiente’. E eu disse, ‘Fred, para ser verdadeiro você deveria ir para casa, jogar fora a sua geladeira enorme e comprar uma nova menor. É a única forma de seguir as normas de Al Gore”.

Bethany Stotts é uma Staff Writer em Accuracy in Academia (www.academia.org), e pode ser contactada em bethany.stotts@academia.org. Este artigo foi publicado em Accuracy in Media (www.aim.org) em 4 de junho de 2008 no link http://www.aim.org/aim-column/warm-and-fuzzy-global-regulation/.

Tradução: Heitor De Paola

[*] America’s Climate Security Act (S. 2191), em discussão no Senado Americano desde 2 de junho de 2008, proposto pelos Senadores Joseph Lieberman (I-CT) e John Warner (R-VA). Restringirá o uso de energia para combater o “aquecimento global”.


Artigo – Olavo de Carvalho

Junho 13, 2008

Contradições do laicismo

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio (editorial), 13 de junho de 2008

A moral laica do mundo burguês reconhece e até proclama com orgulho “científico” sua própria relatividade, em teoria. Mas nenhuma ordem social pode contentar-se com uma obediência relativa, que desembocaria fatalmente no conflito geral e no caos. Daí a distinção prática, tipicamente moderna e burguesa, entre moral privada e ordem pública. A primeira pode multiplicar-se em variações infinitas, desde que não perturbe a segunda. É a informalidade da escolha moral, limitada pela formalidade estrita da ordenação jurídica.

Esse arranjo de ocasião disseminou-se tão universalmente que adquiriu foros de sabedoria eterna e imagem por excelência da “normalidade”, ao ponto de que já ninguém percebe o que ele tem de instável e problemático; e, não o percebendo, tem de improvisar hipóteses rebuscadas para explicar por uma sucessão imaginária de acidentes as crises e percalços que um exame sério deveria ter revelado à primeira vista como desenvolvimentos lógicos e inevitáveis de contradições iniciais não conscientizadas em tempo.

De um lado, aquela distinção constitutiva do Estado laico foi estabelecida como ato de uma minoria revolucionária contra um consenso anterior fundado na homogeneidade moral da sociedade cristã. Uma vez vitorioso, o Estado laico passa a corroer necessariamente o que possa restar dessa homogeneidade, que para ele representa a origem mesma de toda obstinação “reacionária” erguida contra sua obra modernizante. Dissolvida pouco a pouco a unidade moral do povo, a única maneira de evitar a autodestruição da sociedade pelo caos é transferir para a esfera jurídica os mecanismos reguladores antes operados pelo simples automatismo das tradições arraigadas no senso comum. O que era obediência espontânea torna-se assim controle estatal forçado. Na proporção mesma do sucesso obtido pelo Estado leigo em seu esforço de “modernização”, o número, a complexidade e a abrangência dos controles jurídico-burocrático-policiais vão crescendo, avançando para dentro de todos os campos da existência social e invadindo por fim a vida privada e até a intimidade dos pensamentos, regulando a linguagem, a educação doméstica, etc. Tão logo deixa de ser uma promessa e se torna uma realidade, aquilo que surgiu sob o pretexto de resguardar a liberdade individual revela ser um mecanismo opressivo incomparavelmente mais exigente do que a velha autoridade religiosa jamais teria sonhado ser.

A essa primeira contradição soma-se outra pior. Não é possível controlar a sociedade sem regulamentar a economia. À medida que os controles morais embutidos na cultura do velho regime cedem sua autoridade ao aparato judicial, burocrático e policial, amplia-se na mesma medida a intervenção do Estado na economia. O estatismo econômico indefinidamente expansionista é inerente, portanto, à dialética do Estado leigo. Mas este não se impôs justamente mediante a promessa de resguardar a liberdade econômica? Sim. O que não se deve é confundir as intenções declaradas do discurso ideológico com a fórmula política substantiva cuja implantação elas legitimam. A contradição pode escapar até mesmo aos mais sinceros propugnadores da nova política, mas, que ela existe, existe. O moderno Estado leigo pode, com a maior sinceridade do mundo, prometer a liberdade econômica – o que ele não pode é realizá-la, a não ser de maneira capenga, permanentemente ameaçada pelo avanço da mentalidade socialista, que a expansão mesma do laicismo oficial fomenta.

Não é coincidência que o país que defendeu com mais eficácia a liberdade econômica tenha sido justamente aquele que só adotou o laicismo como mecanismo secundário de autocontrole do próprio Estado, sem a ambição de fazer dele um princípio regente de toda a vida social e política, antes conservando vivo e embutindo em suas instituições o máximo que podia das antigas tradições religiosas. Muito menos é coincidência que, hoje em dia, aqueles que desejam radicalizar o princípio laicista, expelindo a religião da vida pública, não sejam de maneira alguma amigos da liberdade econômica, mas todos, em mais ou em menos, adeptos do intervencionismo estatal – socialistas confessos ou enrustidos.


Artigo – Olavo de Carvalho

Junho 13, 2008

Questão de sobrevivência

Olavo de Carvalho
Visão Judaica, 12 de junho de 2008

Arnold Toynbee dizia que as civilizações perecem estranguladas pela dupla pressão de um “proletariado externo” e de um “proletariado interno”. Não sei se como teoria histórica isso vale alguma coisa, mas Toynbee não foi somente um filósofo da História: foi também e principalmente um colaborador dos círculos globalistas interessados em criar um governo mundial. Se o esquema de A Study of History não serve para explicar o que se passou ao longo dos milênios, vem servindo muito bem como guia para o empreendimento de destruição sistemática das soberanias nacionais – de todas as soberanias nacionais, mas especialmente daquelas duas que mais podem oferecer obstáculo às pretensões globalistas: a dos EUA e a de Israel.

Enquanto as demais nações cedem alegremente o controle de seus assuntos internos mais importantes para organismos internacionais aos quais a sua população não tem o menor acesso, aquelas duas continuam exercendo o direito tradicional de tomar suas próprias decisões. Faltando o proletariado externo e interno que possa destruí-las, o poder globalista se apressa em fornecer artificialmente essa dupla carga explosiva, de um lado financiando a rede mundial de ONGs com a função de gritar dia e noite slogans anti-americanos e anti-israelenses, de outro fomentando a imigração legal e ilegal em termos “multiculturais” que não podem ter como resultado senão a dissolução dos sensos de identidade das nações hospedeiras, mais dia menos dia.

Os motivos para a resistência americana são bem claros: os EUA criaram a maior, a mais estável, a mais próspera e a mais duradoura democracia que o mundo já conheceu, e o fizeram sem nenhuma ajuda de organismos internacionais, os quais, ao contrário, dependem da contribuição americana em quase tudo. E os EUA têm uma Constituição que não permite ao seu presidente ceder um milímetro cúbico da soberania nacional a quem quer que seja – Constituição que não é só um documento jurídico, mas a fonte viva do senso de orientação dos americanos em inumeráveis situações da vida.

Israel, porém, tem muito mais que isso: tem cinco milênios de História, tem a consciência da sua missão no mundo e tem a lembrança de sofrimentos horríveis que jamais teriam podido lhe ser impostos se não fosse a sua condição de povo nômade, obrigado a lutar pela vida “in partibus infidelium“.

Embora muitos judeus hoje em dia, sobretudo nos círculos intelectuais elegantes, sejam idiotas o bastante para ignorá-lo ou cínicos o bastante para fingir que o ignoram, o fato é que a defesa da soberania territorial de Israel é uma questão de sobrevivência não só para os seus habitantes, mas para todos os judeus espalhados pelo mundo. E, junto com a soberania territorial, vêm todas as demais formas de soberania: militar, jurídica, diplomática, etc. Qualquer concessão que Israel faça às pressões do globalismo, por mínima que seja, coloca em risco o futuro do povo judeu inteiro. Principalmente quando essas pressões, exercidas por meio de um arremedo de “proletariado externo” regiamente subsidiado por banqueiros internacionais, alegam agir em defesa de um “proletariado interno” que por sua vez é uma farsa no sentido mais pleno da palavra. Os únicos “palestinos” que algum dia existiram são os próprios judeus. Todos os outros são uma fabricação grotesca inspirada na fórmula de Toynbee.


Artigo – Olavo de Carvalho

Junho 13, 2008

Piada satânica

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 12 de junho de 2008

Outro dia um amigo meu me perguntou se eu não havia reparado que, no intervalo de uma geração, condutas descritas pela psiquiatria como neuróticas e até psicóticas passaram a ser aceitas como normais. Não apenas como normais – respondi –, mas como normativas, louváveis e obrigatórias. Os passos seguintes são: (a) marginalizar e criminalizar toda reação de repulsa; (b) tornar a repulsa psicologicamente impossível, expelindo-a do repertório das condutas admitidas na sociedade.

Só a paranóia indisfarçável permite, por exemplo, que, num país onde ocorrem 50 mil homicídios por ano, os assassinatos de 120 homossexuais, espalhados ao longo de um ano num território de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, sejam descritos como uma onda genocida homofóbica. No entanto, basta alguém apelar à comparação estatística e instantaneamente ele mesmo, entre gritos de revolta e lágrimas de indignação da platéia, é acusado de homofóbico e apóstolo do genocídio. A hipótese de confrontar o número de gays assassinados com o de gays assassinos, indispensável cientificamente para distinguir entre um grupo ameaçado, um grupo ameaçador e um grupo que não é nem uma coisa nem a outra, acabou por se tornar tão ofensiva que a mera tentação de sugeri-la já basta para você ser processado por homofobia, antes mesmo de haver lei que a proíba.

Mutatis mutandis, o sr. Luiz Mott alega como prova do ódio generalizado anti-gay uns noventa e poucos casos de agressões a homossexuais ocorridos num prazo de quatro meses em São Paulo, mas quem ousará cotejar esse número com a quantidade de agressões cometidas pelos próprios militantes gayzistas num só dia da Parada Gay na mesma cidade? Raciocinando pelo critério estatístico do sr. Mott, diríamos que os gays são um perigo público. A conclusão é absurda, mas decerto menos absurda do que proclamar que eles estão em perigo.

Proibido o senso das proporções, o fingimento histérico e o hiperbolismo paranóico em favor de grupos de interesse tornam-se deveres cívicos indeclináveis. A loucura tornou-se obrigatória, e quem quer que recuse ser contaminado por ela é um criminoso, um réprobo, um doente mental incapacitado para a vida em sociedade.

O sr. presidente da República acaba de dar foros de exigência estatal a essa estupidez psicótica, ao declarar que toda e qualquer oposição ao homossexualismo é “a doença mais perversa que já entrou numa cabeça humana”.

S. Excia reforça suas palavras insistindo em aparecer em cerimônias oficiais ao lado do sr. Luiz Mott, aquele mesmo que discursa sobre arte pornô abraçado à estátua de um bebê pelado do sexo masculino, transmitindo de maneira nada sutil a idéia de que bebês são ou devem tornar-se objetos de desejo sexual como quaisquer outros (se não acreditam, confiram em http://www.youtube.com/watch?v=FlmfZdyk2YA). A propaganda da pedofilia é aí mais do que evidente, mas, ao condecorar o sr. Mott por “mérito cultural” (como se ele próprio tivesse mérito ou cultura), o sr. Lula joga todo o peso da sua autoridade presidencial no blefe cínico que nos força a negar o que vemos e a crer, em vez disso, na encenação oficial de altas intenções humanitárias e culturais. Não há prepotência maior do que exigir que um ser humano sacrifique sua consciência, sua inteligência a até sua capacidade de percepção sensível no altar do absurdo. “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”, perguntava Groucho Marx. Quando a piada se transfigura em realidade, o humorismo se transmuta em palhaçada satânica.

Totalmente insensível ao grotesco da sua performance, o louco sobe à cátedra e dá lições de psiquiatria, catalogando como doentes os que achem que há algo de errado em erotizar a imagem de um bebê, e ainda propondo, como terapêutica, a prisão de todos eles.

E há quem acredite que é possível discutir racionalmente, polidamente, com pessoas como os srs. Lula e Mott…


Artigo – Olavo de Carvalho

Junho 13, 2008

O queridinho da elite global

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio (editorial), 12 de junho de 2008

Nada mais significativo da retardamento mental brasileiro do que a insistência mecânica, repetitiva, psicastênica, no mote: “Estarão os EUA maduros para aceitar um presidente negro?” A chantagem psicológica embutida nessa pergunta é tão óbvia, tão grosseira, tão primária (“ou você vota em Obama ou confessa que é racista”), que por aqui até mesmo os mais devotos porta-vozes do candidato democrata procuram evitá-la, deixando-a para jornaizinhos de estudantes e grupos de esquerda sem a mínima expressão eleitoral. Tomando como modelo o discurso desses jornaizinhos, a “grande midia” nacional revela todo o seu provincianismo, a sua radical incapacidade de superar os slogans anti-americanos mais bobocas dos anos 50.

Afinal, por que os americanos deveriam, só para provar “maturidade”, eleger presidente o representante de uma comunidade étnica que mal chega a doze por cento da sua população? No Brasil, os negros e afrodescendentes são quase metade do contingente demográfico, e nunca um deles foi comandante das Forças Armadas nem ministro das Relações Exteriores. Nem mesmo candidato à presidência. Em Cuba jamais houve sequer um ministro negro, mas o estoque de negros nas prisões é um dos mais altos do mundo.

O que singulariza o sr. Barack Obama e explica a onda de badalação em torno dele não é a cor da sua pele, nem a soma de seus duvidosos talentos. Alan Keyes – meu candidato, se eu votasse nas eleições americanas – é duas vezes mais preto que ele, mil vezes mais culto e dez mil vezes mais honesto, e nem por isso deixou de ser boicotado ao ponto de ter de sair do Partido Republicano e lançar-se como candidato independente. Embora tenha considerável apoio entre os conservadores, foi excluído de todos os debates e jamais aparece na “grande mídia”.

As diferenças específicas do sr. Barack Obama são as seguintes:

1. Desde William Z. Foster e Earl Browder, que na década de 40 concorreram pelo Partido Comunista e tiveram votações irrisórias, Obama é o esquerdista mais radical que já se apresentou a uma eleição presidencial americana.

2. Ele apóia todas as medidas globalistas voltadas à destruição da soberania americana. Os círculos globalistas devolvem a gentileza, financiando-o generosamente.

3. Ele é o primeiro candidato presidencial que se apresenta com uma biografia nebulosa, contraditória e, a rigor, incompreensível, sendo menos uma pessoa historicamente identificável do que um amálgama de lendas e subterfúgios capaz de se amoldar às projeções mais desencontradas que a imaginação do eleitor possa lançar sobre ele. É, em toda a extensão do termo, uma figura construída, um fantoche.

4. Ele é o primeiro candidato presidencial americano que jamais teve um emprego produtivo. Só trabalhou como ativista. É um comedor de subsídios por natureza, e não espanta que seu programa de governo consista essencialmente de quatro coisas: aumentar impostos, elevar as despesas estatais até às alturas da catástrofe pura e simples, estrangular a indústria americana por meio de mais leis restritivas e bloquear sob lindos pretextos ecológicos a exploração de petróleo, tornando os EUA ainda mais dependentes da OPEC.

4. O círculo de proteção erigido em torno dele pela grande mídia é tão sólido que mesmo sucessivamente desmascarado pelas mentiras tolas que profere e pela revelação de suas ligações com toda sorte de terroristas e vigaristas, ele continua sendo tratado como alma pura e santa. Tal como Lula, ele foi adotado pela elite globalista e investido do dom da impecância eterna, imune à sujeira da sua vida real, que todo mundo conhece mas que é proibido levar em conta. O manto de proteção estendido sobre ele chega mesmo ao Brasil, onde até um colunista supostamente conservador como Ali Kamel canta louvores ao candidato com base tão-somente nas suas intenções declaradas, abstraindo, como se fossem zeros à esquerda, toda a sua atividade anterior e os inumeráveis trechos francamente racistas dos seus dois livros.

5. Somado a essas qualidades, o fato de ser negro é somente um detalhe útil, que não precisa nem deve ser explorado muito abertamente. A chantagem é tanto mais eficiente quanto mais sutil.